11/11/2014

Unidade de pesquisa em truticultura da APTA comemora 50 anos com projeto de biotecnologia
Evento de aniversário será realizado em 12 de novembro, em Campos do Jordão, região serrana de São Paulo

A Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) é a única instituição do Brasil a realizar pesquisas com truta. A Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento da APTA, localizada em Campos do Jordão, é referência nacional na área e marca 50 anos de trabalhos ininterruptos em comemoração no dia 12 de novembro de 2014, às 8h, em Campos do Jordão. O objetivo do evento de comemoração é traçar, com pesquisadores da área, um panorama das pesquisas com truta para os próximos anos. O cinquentenário da Unidade da APTA, completado em setembro, confunde-se com o início da truticultura no Brasil, quando o peixe foi introduzido no País para peixamento de rios e para servir de fonte de proteína para as populações ribeirinhas. Atualmente, a Unidade inicia projeto de pesquisa com tecnologia de ponta, na área de biotecnologia, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). A APTA é ligada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

A adoção de modernas ferramentas de ciência, como a biotecnologia, traz para a Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento de Campos do Jordão da APTA a possibilidade de reduzir o tempo para chegar a resultados desejados e baixar custos de execução. Na pesquisa sobre controle do sexo das trutas, será utilizado o gene sdY, descoberto em 2012, na França, que agiliza a identificação do sexo em trutas.

“Com o uso do gene sdY, podemos identificar aos três meses de idade os animais masculinizados com genótipo XX e, assim, eliminar aqueles machos XY. Com o uso do teste de progênie – técnica tradicional – é possível fazer essa identificação após 27 meses”, explica Ricardo Shohei Hattori, cientista do Programa Jovem Pesquisador em Centros Emergentes da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que em 2014 iniciou os trabalhos na Unidade da APTA. Hattori fazia parte do projeto de pesquisa na universidade Tokyo University of Marine Science and Technology (TUMSAT), em Tóquio, que descobriu o gene de determinação sexual no peixe-rei.

O controle de sexo é importante na truticultura, pois 30% dos machos amadurecem sexualmente antes de atingir o peso desejado. Por isso, a APTA realiza trabalho de reversão sexual nos peixes para proporcionar aos produtores um plantel 100% de fêmeas. O objetivo é ter lote de peixes 100% fêmeas, em que todos são XX. Para alcançar esse resultado, deve-se administrar, por meio da ração, um hormônio masculinizante para que a fêmea desenvolva testículo, ao invés do ovário. “Entretanto, geneticamente ela permanece fêmea (XX), mas vai produzir espermatozoides. Acontece que esses espermatozoides carregam apenas cromossomos X e vão gerar só fêmeas. Desse modo, conseguimos vender para o produtor ovos com a garantia de serem 100% do sexo feminino”, explica Yara Aiko Tabata, pesquisadora da APTA.

No estudo, os pesquisadores visam identificar se o tratamento hormonal para a masculinização de fêmeas genotípicas foi realizado com sucesso, ou seja, se todos os animais do lote são machos XX, que só gerarão fêmeas. Outra vantagem dessa nova tecnologia é a redução dos custos de cultivo para o produtor, que pode eliminar mais rapidamente os peixes indesejados e gastar menos em ração. “Tudo será possível por meio de um teste de PCR", diz Hattori. A previsão é que os resultados fiquem prontos em três horas, tempo estimado para a realização da análise da amostra levada pelo truticultor à APTA. “Esta é uma tecnologia inovadora”, comenta o jovem pesquisador de 33 anos.

Essa é uma das três linhas de pesquisa, dentro do novo projeto da Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento da APTA apoiado pela FAPESP. As outras duas envolvem a caracterização genética das linhagens dos salmonídeos da UPD e transplantes de células germinativas.

Para a realização dos projetos, foi montado um laboratório de biotecnologia na Unidade, em Campos do Jordão. Os recursos FAPESP totalizam R$ 600 mil para infraestrutura, aquisição de equipamentos e materiais de consumo. O projeto prevê ainda intercâmbio de alunos com a universidade japonesa TUMSAT.

Hattori explica que a salmonicultura no Brasil é realizada em áreas montanhosas da região Sul-Sudeste e a produção nacional é relativamente pequena, atendendo principalmente à demanda de restaurantes e hotéis locais. “Tendo em vista o crescente aumento da demanda por ovos embrionados e alevinos, impulsionado pelo desenvolvimento de novos produtos, como a truta salmonada e o caviar de truta, torna-se necessário desenvolver novas linhagens, otimizar a produção dos estoques atuais, além de direcionar os cruzamentos com base em marcadores genéticos”, afirma.

Caracterização e preservação das linhagens de truta

A caracterização e preservação das linhagens de truta são o foco das outras duas linhas de pesquisa da APTA desenvolvidas com uso de biotecnologia. Ao individualizar a linhagem é possível identificar, por exemplo, as trutas que se reproduzem de forma precoce ou tardia. Este trabalho, associado a um processo de seleção, poderá promover a ampliação do período de desova dos peixes e beneficiar a cadeia de produção.

A truta desova uma vez ao ano, de maio a agosto.  A disponibilidade anual de ovos embrionados e/ou alevinos traz a necessidade de controlar o crescimento dos peixes, a fim de produzir trutas com tamanho uniforme, durante todo o ano. O manejo da taxa de arraçoamento e a prática de triagens periódicas são alternativas empregadas para atender às exigências do mercado. Esse manejo resulta no uso ineficiente das instalações e da água, com situações de super ou subutilização dos tanques em determinadas épocas do ano, reduzindo a rentabilidade da truticultura comercial. Esses problemas poderiam ser minimizados com o uso da biotecnologia, estabelecendo linhagens para produção de ovos fora da temporada normal, permitindo explorar melhor o potencial de crescimento dos peixes e facilitando o manejo adotado no escalonamento de produção da truta, segundo a pesquisadora Yara Tabata.

Na Unidade da APTA, há seis linhagens de salmonídeos. “Uma delas, a denominada de Campos do Jordão, é adaptada para a região da Serra da Mantiqueira”, diz a pesquisadora. Hattori explica que, atualmente, a caracterização das linhagens de truta é feita por meio da análise da morfologia e da cor do peixe. “Esse método de visualização não é eficiente, sobretudo em animais em fase embrionária”, diz o pesquisador. A manutenção dessas trutas é fundamental. Segundo Hattori, as regiões montanhosas – ideais para a truticultura — são áreas passíveis de desastres naturais, como desmoronamento, por exemplo, que podem resultar na perda de linhagens importantes, como a de Campos do Jordão.

Conservação

Aliada à caracterização, o projeto de pesquisa prevê a preservação dessas linhagens, por meio do congelamento das células germinativas dos animais em nitrogênio líquido. “Congeladas, essas células formam um banco de germoplasma. Caso haja um problema que comprometa a continuidade da linhagem, podemos implantar essas células em outro peixe, que gerará alevinos da linhagem em questão. Esta técnica é chamada de barriga de aluguel”, explica o pesquisador da FAPESP.

Células congeladas de um único organismo podem gerar gametas femininos e masculinos, garantindo a continuidade dessas linhagens. O procedimento será feito inicialmente com truta, mas o pesquisador pretende ampliar o estudo para outras espécies nativas.

50 anos marcados por resultados

A truta foi introduzida no Brasil em 1949, pelo médico veterinário e pesquisador da Divisão de Caça e Pesca do Ministério da Agricultura, Ascânio de Faria, na Serra da Bocaina. Naquele momento, o objetivo principal era promover o peixamento dos rios, localizados em regiões serranas. Por meio da pesca, esperava-se oferecer uma alternativa de alimento de boa qualidade às populações ribeirinhas.

Em 1953, foi a vez de Campos do Jordão receber os alevinos  de truta para peixamento dos rios Sapucaí-Guaçu e Ferradura e a represa de Itapeva. Onze anos depois, em 1964, foi inaugurado o Posto de Salmonicultura, que veio a ser designado de Estação Experimental de Salmonicultura “Ascânio de Faria”. A instalação da Unidade da APTA, no Horto Florestal de Campos do Jordão, foi baseada nas condições ecológicas exigidas pela truta, como águas límpidas, com baixa temperatura e ricas em oxigênio.  

Hoje, a UPD da APTA é responsável pela produção de 2 milhões de ovos de truta, que resultam na produção de 420 toneladas do peixe. A APTA atende 10% da demanda nacional e fornece esses insumos para 80 truticultores de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraná. O impacto dos estudos da APTA na produção é de R$ 18 milhões em quatro anos.

“Todos esses trabalhos mostram que a Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento da APTA, em Campos do Jordão, tem atuação pujante. No passado, os trabalhos tiveram papel fundamental para a consolidação de uma nova atividade no Brasil. Hoje, a pesquisa é essencial para a vida dos 165 truticultores brasileiros e, principalmente, dos 80 atendidos diretamente pela Unidade”, afirma Orlando Melo de Castro, Coordenador da APTA

Nesses 50 anos de pesquisa, a Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento de Campos do Jordão, da APTA, desenvolveu diversos trabalhos científicos e produtos que modernizaram a truticultura brasileira, como a tecnologia “100% fêmea”, que possibilita a produção de lotes de truta apenas com fêmeas. Na truticultura, os machos são considerados persona non grata, pois 30% deles amadurecerem sexualmente antes de atingir o peso de 300 gramas, desejado pelo mercado.

Ao amadurecerem sexualmente, a energia que deveria ser usada para o crescimento do peixe é empregada para produzir gametas. Com isso, os machos sexualmente precoces têm o crescimento reduzido e, além disso, o efeito da testosterona deixa a pele mais espessa e a carne com menor qualidade. Atualmente, do total dos dois milhões de ovos vendidos aos produtores pela APTA, 80% são de ovos 100% fêmeas.

A Unidade também é responsável pela produção de trutas estéreis por meio da “triploidização”, tecnologia que viabiliza a produção de peixes de grande porte. Normalmente, as trutas são comercializadas aos 300 gramas, mas com o trabalho da UPD, é possível produzir peixes com cerca de três quilos. “Como as trutas triplóides são estéreis, não produzem hormônio sexual, suas carnes têm ótima qualidade”, explica Yara.

Esse filé, maior e mais alto, garantem os chefs, é o diferencial de seus pratos, por proporcionar melhor sabor, textura e umidade. “É um peixe que tem sabor de peixe”, resume Fernando Couto, chef e proprietário do restaurante Confraria do Sabor, de Campos do Jordão.

O desenvolvimento de novos produtos que podem agregar valor à produção é o norte do trabalho da UPD da APTA, responsável pelo desenvolvimento da truta salmonada, que reúne sabor, cor e saúde. Como acontece com o salmão, a carne da truta, é branca. Graças aos trabalhos da Unidade da APTA foi possível otimizar os processo de salmonização da truta. A tecnologia faz aumentar o preço de venda do produto, compensando muito o custo de produção, que é 30% maior.  

É da APTA também o caviar de truta que além de trazer benefícios nutricionais, tem preço menor para o consumidor e é opção ao caviar de esturjão, peixe em extinção. Enquanto 100 gramas do caviar importado custam de R$ 480,00 a R$ 1.500,00, a embalagem com 40 gramas do caviar de truta pode ser encontrada por R$ 20,00.  “A viabilidade econômica nas pequenas truticulturas depende da adoção de tecnologias que proporcionem aumento da produtividade e da renda, por meio da diversificação de produtos com valor agregado”, explica Yara. O caviar de truta foi desenvolvido pelo Instituto de Pesca (IP) e UPD de Campos do Jordão, ambas unidades ligadas à APTA.

SERVIÇO

Comemoração dos 50 anos da Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento da APTA

Data: 12 de novembro de 2014

Horário: 8h

Local: UPD de Campos do Jordão

Endereço: Parque Estadual de Campos do Jordão, S/N, Campos do Jordão – SP Caixa Postal 361, CEP: 12.460-000

Texto: Fernanda Domiciano

Assessoria de Imprensa – APTA

Edição: Carla Gomes (MTb 28156)