18/07/2012

Maca√ļba: projeto busca consolidar cadeia do biodiesel com agricultura familiar no Pontal do Paranapanema

Um projeto de consolida√ß√£o da cadeia do biodiesel de maca√ļba com a agricultura familiar ser√° desenvolvido no Pontal do Paranapanema (SP) pela Escola Superior de Agricultura ¬ďLuiz de Queiroz¬Ē (ESALQ-USP), em parceria com o Polo Alta Sorocabana/APTA Regional da Ag√™ncia Paulista de Tecnologia dos Agroneg√≥cios/Secretaria de Agricultura e Abastecimento, Funda√ß√£o Instituto de Terras do Estado de S√£o Paulo (ITESP) e associa√ß√Ķes de produtores. A proposta - uma iniciativa da Funda√ß√£o de Estudos Agr√°rios ¬ďLuiz de Queiroz¬Ē (FEALQ) ¬Ė tem o objetivo de promover a gera√ß√£o de renda, seguran√ßa alimentar e o uso/conserva√ß√£o da biodiversidade local. A maca√ļba √© uma palmeira nativa de ampla ocorr√™ncia no Estado de S√£o Paulo e se apresenta como uma alternativa par a agricultura familiar, diz o pesquisador Joaquim Adelino de Azevedo Filho, do Polo Leste Paulista/APTA Regional. Pode produzir mais de 5.000 kg de √≥leo por hectare, com baixo custo, devido sua ampla adapta√ß√£o aos diferentes tipos de solos e condi√ß√Ķes ambientais. ¬ďEste patamar de produtividade pode permitir uma rentabilidade em pequenas √°reas, o que seria invi√°vel com culturas anuais como soja, girassol, mamona etc. Assim, permite que a agricultura familiar possa integrar a cadeia produtiva do biodiesel.¬Ē O trabalho ser√° realizado nas comunidades rurais de Teodoro Sampaio, Mirante do Paranapanema, Presidente Epit√°cio e Caiu√°, localizadas no Pontal do Paranapanema, regi√£o sudoeste do Estado de S√£o Paulo. O p√ļblico beneficiado ser√° composto basicamente de agricultores assentados, al√©m de t√©cnicos e pesquisadores de institui√ß√Ķes parceiras. Al√©m de consolidar a produ√ß√£o da maca√ļba no √Ęmbito da agricultura familiar, a id√©ia √© articular a comunidade para o uso e o manejo da cultura em assentamentos rurais com vistas √† extra√ß√£o de √≥leo para a produ√ß√£o de biodiesel, explica o pesquisador Nobuyoshi Narita, diretor do Polo Regional Alta Sorocabana, que vai conduzir o trabalho. Outros prop√≥sitos s√£o formar e instrumentalizar agricultores, t√©cnicos e pesquisadores; intensificar e consolidar pesquisas sobre maca√ļba e outras oleaginosas com potencial na regi√£o; integrar pol√≠ticas p√ļblicas de biocombust√≠veis com aquisi√ß√£o de alimentos; integrar parceiros que atuam na regi√£o; e gerar subs√≠dios para propostas inovadoras de uso, ocupa√ß√£o, recupera√ß√£o e conserva√ß√£o de √°reas de preserva√ß√£o permanentes (APP) e reservas legais. Entre as a√ß√Ķes estrat√©gicas, est√° prevista a implanta√ß√£o de 50 unidades t√©cnicas de observa√ß√£o com agricultores familiares e o planejamento para uso e manejo comunit√°rio das popula√ß√Ķes nativas de maca√ļba no Pontal. A regi√£o do pontal √© uma das maiores √°reas de assentados do pa√≠s, com aproximadamente seis mil fam√≠lias (112 assentamentos rurais divididos em 13 munic√≠pios), vivendo em √°rea total de 150 mil hectares. As proje√ß√Ķes s√£o de assentamento de 50 mil fam√≠lias na regi√£o, em um total de um milh√£o de hectares de terras devolutas. A regi√£o possui a maior floresta de mata atl√Ęntica ainda em p√© longe do litoral, ¬ďapesar de a cana-de-a√ß√ļcar estar comendo essas florestas paulatinamente¬Ē, mas tamb√©m tem enorme car√™ncia de pol√≠ticas p√ļblicas de incentivo ao uso da terra e fixa√ß√£o do homem no campo, observa o pesquisador Carlos Augusto Colombo, do Instituto Agron√īmico (IAC-APTA). Paralelamente, √© a regi√£o de maior ocorr√™ncia da palmeira maca√ļba no estado, com centenas ou milhares de hectares com a esp√©cie. S√£o mais de mil plantas por hectare, que podem ser importante gerador de renda local. No entanto, a explora√ß√£o da esp√©cie em seu ambiente natural requer normas ou boas pr√°ticas de manejo, que devem ser regulamentadas pelo Minist√©rio do Desenvolvimento Agr√°rio (MDA), assinala Colombo. Reuni√£o realizada em junho passado, em Teodoro Sampaio, teve esse prop√≥sito, ou seja, dar in√≠cio √† prepara√ß√£o de um documento que oriente a explora√ß√£o das plantas nativas de maca√ļba da regi√£o do pontal. ¬ďAo mesmo tempo, como resultado de nosso projeto FAPESP, selecionamos cerca de 40 matrizes ou plantas-elite (em fun√ß√£o da produ√ß√£o de frutos e rendimento de √≥leo), cujas prog√™nies ser√£o avaliadas em tr√™s ambientes¬Ē, diz Colombo. Um desses projetos √© justamente o do Pontal. ¬ďA id√©ia √© avaliar o comportamento dessa plantas-elite naquela regi√£o com vistas √† sele√ß√£o dos melhores gen√≥tipos para plantio comercial e explora√ß√£o sob bases mais competitivas.¬Ē Pesquisas e tecnologias Os estudos com a maca√ļba come√ßaram em 2006 no IAC, por meio de projeto financiado pela Funda√ß√£o de Amparo √† Pesquisa do Estado de S√£o Paulo (FAPESP) e coordenado por Colombo. Este projeto envolveu duas disserta√ß√Ķes de mestrado. A primeira, orientada pelo pesquisador Joaquim Adelino, focou o desenvolvimento de biblioteca de microssat√©lites para a esp√©cie (basicamente, o seq√ľenciamento de regi√Ķes-alvo do genoma em busca de sequ√™ncias repetidas para serem utilizadas como marcadores em estudos gen√©ticos da esp√©cie). A segunda disserta√ß√£o, orientada pelo pesquisador Ricardo Marques Coelho (IAC), buscou associar a diversidade observada em plantas de diferentes popula√ß√Ķes no Estado, em rela√ß√£o a dados de clima e f√≠sica/qu√≠mica do solo. Este estudo revelou que regi√Ķes com maior fertilidade ou mat√©ria org√Ęnica apresentavam plantas mais produtivas, explica Colombo. ¬ďEsses dados sugerem que a esp√©cie responde √† aduba√ß√£o e que a sele√ß√£o de gen√≥tipos elite para fins de multiplica√ß√£o deve ser relativizada em fun√ß√£o das caracter√≠sticas ambientais do local.¬Ē A partir de 2009, com o melhor conhecimento dos locais de ocorr√™ncia da maca√ļba, ¬ďpassamos a selecionar plantas e a acompanhar sua produ√ß√£o e determina√ß√£o do teor de √≥leo e outros componentes¬Ē, explica Joaquim Adelino. Nesse sentido, o aluno de doutorado Luiz Henrique Chorfi Berton, com bolsa FAPESP, desenvolve o trabalho ¬ďDiversidade e estimativas de par√Ęmetros gen√©ticos em maca√ļba (Acrocomia aculeata), sob orienta√ß√£o de Colombo. O segundo projeto FAPESP (2011), envolvendo dois alunos de doutorado, al√©m de solicita√ß√£o de bolsa para um aluno de p√≥s-doc, tem o t√≠tulo ¬ďDiversidade Gen√©tica e Sele√ß√£o de Matrizes com Testes de Progenies da Palmeira Maca√ļba para Produ√ß√£o Biodiesel¬Ē. De acordo com Colombo, nesse estudo, a sele√ß√£o das plantas matrizes √© conduzida a partir de dados ¬ďmorfo-agron√īmicos¬Ē, de rendimento e composi√ß√£o do √≥leo dos frutos e de marcadores moleculares em plantas de maci√ßos naturais em diversos ambientes do estado de S√£o Paulo e √°reas lim√≠trofes no estado de Minas Gerais. Paralelamente, s√£o conduzidos protocolos de cultura de tecidos para multiplica√ß√£o clonal de plantas-elite, estabelecimento de rela√ß√Ķes entre nutri√ß√£o e regime de produ√ß√£o de frutos e estudos de anatomia de c√©lulas produtoras de √≥leo frutos visando √† identifica√ß√£o de indicadores para sele√ß√£o precoce. Tudo isso, de acordo com Colombo, para fornecer suporte √† ado√ß√£o da esp√©cie para produ√ß√£o de biodiesel sob bases competitivas, recupera√ß√£o de √°reas degradadas, plantio em √°reas de reserva legal e gera√ß√£o de renda para agricultura familiar. A palmeira maca√ļba apresenta grande potencial para se tornar uma cultura que venha a complementar a cadeia de biodiesel, demonstra o estudo ¬ďSele√ß√£o de matrizes de maca√ļba (Acrocomia aculeata) para produ√ß√£o de biodiesel¬Ē, do doutorando Luiz Berton, em parceria com os pesquisadores Joaquim Adelino, C√°ssia Regina Limonta de Carvalho, Walter Jos√© Siqueira e Carlos Colombo. Entre os anos-agr√≠colas 2009/10 e 2010/11, foram avaliados 274 gen√≥tipos de maca√ļba em 25 popula√ß√Ķes naturais da planta nos estados de S√£o Paulo e Minas Gerais. Para estimar a produ√ß√£o de √≥leo, foram feitas an√°lises em campo a fim de avaliar a quantidade de cachos e frutos por planta. No laborat√≥rio, foram feitas an√°lises de biometria dos frutos e teores de √≥leo do mesocarpo (polpa) e endosperma (semente ou castanha). Para a sele√ß√£o de matrizes superiores, utilizou-se como crit√©rio uma sele√ß√£o estratificada, contemplando assim os melhores gen√≥tipos dentro de cada popula√ß√£o estudada. Os resultados do trabalho indicam que a estimativa de √≥leo a partir de gen√≥tipos superiores pode ser superior a dez quilos de √≥leo por hectare/ano. Encanto da palmeira De acordo com Colombo, a produ√ß√£o de √≥leo por hectare √© ¬ďo que mais encanta nessa palmeira¬Ē. O √≥leo pode ser extra√≠do da polpa como da semente ou castanha. O fruto √© muito parecido com o coco da Bahia (Cocus nucifera), e tem uma parte fibrosa ou polpa que envolve a semente. No caso da maca√ļba, detalha Colombo, essa polpa tem tanto √≥leo que basta apertar com os dedos que ele escorre na m√£o e pinga no ch√£o. Esse √≥leo, cujo conte√ļdo pode variar de 6 a 65% no mesocarpo (em base seca), √© rico em √°cido ol√©ico, o que √© bom para o biodiesel. O √≥leo da am√™ndoa ou castanha (endocarpo) n√£o varia muito (em torno de 53 a 57%) e √© rico em √°cido palm√≠tico, o que favorece o seu emprego na ind√ļstria de alimentos ou cosm√©ticos, explica Colombo. ¬ďConhe√ßo um empres√°rio de Minas Gerais (Marcelo) que est√° vendendo o √≥leo de maca√ļba como subproduto. Isso porque uma empresa est√° comprando a parte dura da semente (que envolve a am√™ndoa) para produ√ß√£o de filtros. Nisso, o √≥leo acaba virando um segundo neg√≥cio.¬Ē Sendo a maca√ļba a palmeira de mais ampla √°rea de ocorr√™ncia no continente americano, significa que a esp√©cie √© adaptada a diferentes ambientes e pode ser cultivada sem maiores dificuldades em muitos locais, resume Colombo. Apresenta ¬ďenorme vantagem em rela√ß√£o a outras palmeiras, como o dend√™, por exemplo, que necessita de grande volume de √°gua para produzir¬Ē. Al√©m disso, acrescenta Colombo, a maca√ļba tem sido encontrada em ambientes marginais impr√≥prios para culturas que demandam alta tecnologia de produ√ß√£o, terrenos acidentados ou margem de rios ou em pastagens, sugerindo que possa ser adotada para recupera√ß√£o de √°reas degradadas. ¬ďPor ocorrer em tamanha extens√£o territorial, isso contribui para que a esp√©cie apresente grande diversidade para todas as caracter√≠sticas de interesse que temos observado: quantidade de espinhos, altura da planta, n√ļmero de cachos, n√ļmero de frutos por cacho, tamanho e colora√ß√£o de frutos e, principalmente, rendimento de √≥leo, sobretudo do mesocarpo.¬Ē A atual equipe de maca√ļba da APTA re√ļne ainda os pesquisadores Luiz Teixeira e Rose Marry Gondim Tomaz (IAC), Roseli Aparecida Ferrari (Instituto de Tecnologia de Alimentos-ITAL), Suelen Loesch (doutoranda FAPESP) e Stella Maris de Nucci (candidata a bolsa FAPESP p√≥s-doc). Assessoria de Comunica√ß√£o da APTA Jos√© Ven√Ęncio de Resende (11) 5067-0424 Link da mat√©ria no site da APTA: http://www.apta.sp.gov.br/noticias.php?id=4100